terça-feira, 25 de novembro de 2014

Uma empresa (de um Português) no Reino Unido

Quando vim para Londres, o meu maior sonho profissional era criar uma empresa no Reino Unido.

Há muitos anos atrás, eu criei uma empresa em Portugal e apesar dela ter falhado foi graças a esta experiência que aprendi muitas coisas.

A mais importante foi olhar para um negócio como algo que deve ter lucro... Fazer coisas fixes e que gostamos é o principal, mas se a empresa não gerar dinheiro suficiente para se manter viva, isso pode ditar o fim do principal: fazer coisas fixes e que gostamos ;)

Este ponto de vista empreendedor foi algo que comecei a reparar que nem toda a gente tem e que eu, antes de ter a minha empresa, também não tinha... Mas desde que o adquiri tem-me tornado num melhor funcionário nas empresas onde trabalho, por levar-me a fazer mais do que me é pedido... Por exemplo, dou ideas para expandir o portfólio, tento optimizar processos ou sugiro formas de reduzir custos.

Recentemente, quando comecei a informar-me sobre o que era necessário para trabalhar como freelancer, apercebi-me que uma das opções era criar uma empresa limitada... Nesse momento, ouvi vozes celestiais de fundo... Afinal de contas esta empresa seria útil não só para as minhas actividades como freelancer, como também para dar um abrigo legal e financeiro aos projectos que tenho e quero criar... Para além de me dar o gozo de alcançar o sonho profissional que falava no início.

Depois de arranjar um contabilista para me ajudar no processo de criação da nova empresa, tudo foi extremamente simples e linear... A única coisa que me deu algo que pensar foi o nome da empresa.

Este nome não é muito relevante para as minhas actividades, por isso decidi brincar um bocado com ele e escolher algo que revelasse que há um Português por trás desta empresa... A tarefa não foi assim tão fácil, pois o nome teria de respeitar todos estes critérios:
- Nome ligado à Informática ou Internet
- Usar palavras Portuguesas
- Sem usar caracteres especiais Portugueses (eg, á ou ê)
- Sem usar fonemas Portugueses (eg, "lhe" ou "nho")
- Que pudesse ser lida por um Inglês
- E claro, que fosse aceite pela Companies House

De fora ficaram palavras como informática, português, web, engenharia e outras tantas... E ao fim de muito pensar... De riscar opções por encontrar nomes semelhantes já registados... E de testar a leitura com os meus amigos Ingleses, o resultado foi finalmente alcançado:

Projectos na Net

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Project London 2.0

Pegando no que disse anteriormente, se a minha minha vida muda de 3 em 3 meses, imaginem o que aconteceu desde que escrevi há mais de um ano.

Tem sido uma viagem incrível e como alguém já disse "o importante não é o destino, é a caminhada até lá"... Tenho continuado a testar os meus limites e com isto tenho aprendido montes de coisas... Por isso decidi voltar a escrever para partilhar algum deste conhecimento adquirido e iniciar uma nova fase do Project London.

Deixo alguns destaques do que aconteceu desde o último post:

Mudei de casa e comecei a viver sozinho num estúdio... No meu trabalho mudámos de escritório para um edifício ainda mais central (no West End, a dois minutos a pé de Leicester Square)... Mudei novamente de casa e comecei a viver sozinho num T1... Demiti-me da empresa onde estava a trabalhar... Lancei o meu primeiro website internacional... Abri a minha empresa no Reino Unido... E comecei a trabalhar como freelancer!

Nos próximos posts eu vou abordar algumas destas coisas com mais detalhe... Até já :)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

De casa para o trabalho... de bicicleta!

Tenho de admitir que estava errado!... Achava que não podia ir para o trabalho de bicicleta porque era perigoso circular em hora de ponta e não era conciliável com os meus hábitos matinais (só tomo o pequeno-almoço quando chego ao trabalho).... Também há outra coisa em que estava errado: ir de bicicleta para o trabalho não é fixe... É MUITO fixe! :)

Certo estava o Superior, quando dizia que andar de bicicleta em Londres é "uma ideia à Torpedo" e que desde que começou a fazê-lo passou a perceber melhor a ligação entre várias zonas de Londres.

Como não podia deixar de ser, a minha bicicleta tinha de ter uma história por trás:

Depois de um passado desconhecido antes de ser abandonada pelo seu dono anterior, foi encontrada pela Mariana... O Luís reparou-a quase na sua totalidade precisando apenas de uma roda traseira nova... E depois do Luís e da Mariana me oferecerem a bicicleta, abandonei-a durante mais de 6 meses... Inicialmente porque precisava da roda, depois porque dava trabalho tirá-la de casa e por fim por estupidez... Mas há um mês, o destino forçou-me a deixá-la presa na rua e foi quando resolvi experimentar usá-la para ir para o trabalho... Desde então só parei de o fazer quando está a chover :)

Com o dinheiro que tenho poupado no "passe" (£116,80/mês) tenho comprado peças para a bicicleta, que tornaram a viagem para o trabalho ainda mais agradável... Desde um "volante à pasteleiro" a pequenos acessórios, a bicicleta evoluiu tanto que o Luís nem a reconheceu quando voltou a vê-la... E como encomendo estas peças pela Net e as monto na garagem do escritório a minha reputação como "bike doctor" cresceu ao ponto de outros colegas me pedirem para os ajudar com problemas que têm nas suas bicicletas.

Sim, porque isto de ir de bicicleta para o trabalho é uma coisa bastante normal e apoiada pelo governo, empresas e cidadãos... Por exemplo, em muitos semáforos há zonas próprias para os ciclistas esperarem pela luz verde (onde já cheguei a contar mais de 10 ciclistas para além de mim)... Há ajudas ao pagamento das bicicletas... Há bicicletas públicas... Quase todos os escritórios têm chuveiros para os "aceleras" poderem tomar um banho ao chegar ao trabalho... E dentro dos escritórios é normal ver bicicletas ao lado das secretárias, quando não é possível deixar a bicicleta na garagem, como eu faço com a minha:


sexta-feira, 12 de julho de 2013

Trabalhando de Londres para Portugal

Tenho trabalhado tanto que nem tenho tido tempo para escrever um post novo... Afinal de contas, o meu tempo é um recurso limitado e quando ele escasseia há que definir prioridades (ou não fosse eu um gestor de projectos).

Para além do meu trabalho na Arena, tenho trabalhado bastante nos meus projectos: a Bibliofeira e a RedeCultural.

Desde desenvolvimentos que estavam pendentes há muito tempo, a contactos para criar uma equipa, muito do meu tempo tem sido dedicado a fazê-los crescer o mais possível.

Como diz o ditado, "quem corre por gosto não cansa" e a provar isso está o facto de me ter apercebido que já se passaram largos meses desde que joquei o último jogo de computador... E não sinto falta disso... Isto porque tenho tido tanto gozo a trabalhar, como tinha a jogar, e ainda tenho a vantagem de ganhar dinheiro em vez de pontos virtuais ;)

Com o novo portátil tenho trabalhado nos sítios mais impensáveis e isso originou outra coisa que me dá bastante gozo:
Apesar de estar com o portátil aberto num metro ou autocarro Londrino, o destino do que está a ser trabalhado está bem longe daqui.

Não gosto de pensar que tenho um pé em Londres e um em Portugal... Mas que os meus pés estão bem assentes em Londres e a minha cabeça está em Portugal.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Lenovo Yoga

Uma das razões porque não tenho escrito nada ultimamente tem sido pela falta de mobilidade do meu portátil... Ele é mais um "transportável" do que um "portátil".
Afinal de contas aquele portátil foi uma escolha forçada pela necessidade e pelo limitadíssimo orçamento que dispunha naquela altura.

Felizmente, em apenas dois anos, as coisas mudaram bastante e foi por isso que pude pensar um pouco mais além do essencial:

Um portátil tem o teclado que me é muito útil para trabalhar, mas se quiser ler um documento ou fazer uma apresentação realmente o teclado está a mais... Uma tablet seria o ideal para estes casos, mas se calhar viria a ser mais um brinquedo caro do que a ferramenta de trabalho...

E foi enquanto pensava se deveria comprar uma tablet ou um portátil que vi no metro um anúncio deste bichinho:


Basicamente é um portátil que dá para abrir bem mais do que o normal... Transformando-se numa tablet depois do monitor rodar 360º e ficar de costas voltadas para o teclado.
Para além disso é muito mais leve do que o meu "transportável", mais rápido e a bateria dura 4 vezes mais... Isto vai permitir-me trabalhar muitas mais vezes fora de casa e até o usar para outros fins mais "tabletianos".

Mas apesar de já o namorar há mais de um mês, havia uma coisa que me impedia de o comprar... O preço... £1000!!!

Até que um colega que tinha comprado este portátil desmontou este argumento quando me disse:
"Não é caro... Se pensares que estás a comprar um portátil, uma tablet e uma televisão por £1000, não é caro."

Pois... E vou precisar dos três... De um portátil "portátil" preciso com alguma urgência... Uma tablet vai ser algo muito útil... E uma televisão é algo que vou precisar daqui a umas semanas quando for viver sozinho...

Acho que já escrevi demais... É melhor deixar esta novidade para um outro post ;)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

House Hunting

A procura da casa foi mais difícil do que contávamos, chegando ao ponto de criar algum atrito entre mim e meus amigos... Afinal de contas, nós damo-nos muito bem mas não partilhamos o mesmo cérebro... Temos gostos diferentes que nem sempre são compatíveis com as decisões que temos de tomar em grupo.

Foi muito cansativo mas ao mesmo tempo muito enriquecedor já que tive a oportunidade de conhecer de uma forma bem mais profunda a dinâmica e dimensão do mercado imobiliário londrino.

Com tanta gente a chegar e partir desta cidade, este mercado é extremamente fértil o que leva a que existam bastantes agências imobiliárias... E quando digo bastantes são mesmo muitas mais do que tinha ideia... Por exemplo, procurando agências que trabalhassem na mesma área onde vivíamos decidi percorrer um pouco mais de 2 Km entre Kentish Town e Archway, anotando o nome e contacto de agências imobiliárias encontrava pelo caminho... Quantas agências encontrei?... VINTE!... E não, não são vários representastes das mesmas agências... São mesmo vinte agências diferentes.

Outra coisa interessante que prova o dinamismo deste mercado foi descobrir que as agências vão guardando as fotos e plantas das casas que vão aparecendo no mercado... Desta forma, passado uns anos (ou até meses) quando essas casas voltarem a aparecer no mercado, eles conseguem mais rapidamente anunciá-las nos seus websites... Apercebi-me disto quando recebi fotos de uma casa onde os quartos não tinham alcatifa... Durante a visita à mesma ficamos a saber que afinal os quartos foram alcatifados... Há um ano atrás!

Voltando ao nosso caso, depois de um mês a "caçar casa"... Depois de vermos muitas casas (e muitas espeluncas!) acabámos por escolher uma casa em Highgate.

Como neste momento trabalho no centro, não me incomoda nada viver um pouco mais na periferia (zona 3)... Muito pelo contrário, está a dar-me bastante gozo viver numa área é bem diferente da anterior com outro tipo de vantagens.

Agora tenho duas formas de chegar à estação de metro:
a) ou ando 3 minutos a pé até à paragem e apanho um autocarro até à estação
b) ou vou a pé o caminho todo até à estação... E apesar de ser uma caminhada de 15 minutos, como é que poderia resistir a passar por um bosque como este numa rotineira ida para o trabalho:

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

LOOP

Há quase um mês atrás fui com um grupo de amigos fazer uma parte do LOOP (London Outer Orbital Path), um percurso definido em redor de Londres.

Este percurso para além de estar muito bem escolhido, está dividido em várias secções que começam e acabam em estações de metro/comboio, o que permite terminar e recomeçar o percurso noutro dia.

Fiquei muito surpreendido com a variedade de animais que encontrámos e com as lindíssimas paisagens por onde passámos... É difícil acreditar que tudo aquilo está dentro dos limites da M25, a auto-estrada que circunda a Grande Londres.

Há muitos anos, quando vivia no Porto, por vezes pegava na mochila e ia sozinho para o Campo do Gerês (não confundir com a Vila do Gerês)... Especialmente quando precisava pensar sobre a minha Vida... O que fez daquele lugar uma espécie de santuário para onde me retirava quando era necessário.

Mas desde que vim para Londres, parei com este ritual de fazer caminhadas solitárias pelo campo/montanha... Fiz algumas caminhadas pela cidade, mas realmente não é a mesma coisa e há pouco mais de uma semana isso ficou muito claro, quando resolvi fazer sozinho uma outra parte do LOOP.

Antes de sair de casa atirei para dentro da mochila a minha máquina de filmar... Pensei que seria interessante filmar algumas paisagens... Mas quando comecei a andar numa parte do percurso que tinha terra tive a ideia de fazer um vídeo... Para mim, ouvir apenas o som dos meus passos na terra, é o som das caminhadas... Era isto que ouvia nas montanhas do Gerês... E foi isto que ouvi nos campos de Londres:

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Novo Emprego & Nova Casa

Bem, a nova casa ainda está por decidir, por isso é melhor começar pelo que está confirmado:

Comecei a trabalhar há umas semanas num novo emprego, como gestor de projectos digitais :)

Ao contrário do que aconteceu anteriormente, desta vez não houve uma euforia com a conquista de um novo emprego, apesar dele ser espectacular.

Da primeira vez houve uma explosão de alegria por ter conseguido um emprego como gestor de projectos depois de ter estado tantos meses desempregado a lutar para o conseguir... Da segunda houve outra explosão de alegria motivada pela confirmação de que eu conseguia chegar ainda mais alto do que imaginava... Mas desta vez aconteceu aquilo que esperava e que acontecerá muitas mais vezes: uma sequência de empregos que confirmarão aquilo em que acreditava.

Ou seja, não estou eufórico, mas estou muito contente com este novo desafio que tem as seguintes vantagens:
- Para além de fazer gestão de projectos (numa empresa com grandes clientes e com cerca de 150 pessoas no escritório), também estou a gerir uma pequena equipa (um developer, uma designer e uma copywriter)
- Vou poder aprender muito sobre optimização de websites (com os meus colegas das equipas de SEO, PPC e Analytics)
- Estou a ganhar ainda mais do que no emprego anterior
- E a melhor de todas: trabalho mesmo no centro de Londres! Perto da estação de metro de Totenham Court Road :)

Graças a esta última vantagem, agora posso ir almoçar ou tomar um copo ao final do dia com os meus colegas de casa que trabalham no Soho, coisa que se revelou muito útil quando tivemos de fazer "reuniões de emergência" para decidirmos se íamos mudar de casa.

A decisão não foi fácil... Quer por cada um de nós estar algo dividido quanto ao que gostaria de fazer, quer pela senhoria nos oferecer propostas alternativas, quer pelo grupo se ter alterado.

Esta casa foi muito acolhedora e graças a ela o tempo que estive desempregado foi muitíssimo mais fácil de suportar... Mas agora é altura de mudar e partir à procura de uma nova casa... Está aberta a caça!

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A (minha) Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos

Agora que toda a gente viu a Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos, compreende o que eu tinha dito sobre a surpresa ser um factor relevante... Espero que tenha valido a pena :)

Para trás fica um dos momentos mais marcantes da minha Vida, duas entrevistas para a RTP (e uma para a SIC que acho que não foi emitida), dezenas de comentários e centenas de "likes" no Facebook dos espectadores mais relevantes para mim: a família e amigos.

Como é fácil de imaginar, um evento como este daria para vários posts... Mas para não exagerar, vou aguardar mais umas semanas e assim poderei usar algumas das várias fotos e vídeos que começam a emergir na Internet vindos de canais oficiais ou de outros performers que tal como eu fizeram as suas filmagens e fotos.

Como infelizmente não apareço em nenhum plano da emissão televisiva, vou falar sobre o evento da minha humilde perspectiva:

No dia da Cerimónia, apesar desta ainda não ter acontecido, já se sentia a nostalgia de se fazerem algumas coisas pela última vez... De entrar no Parque Olímpico, dos nossos passes serem controlados, de irmos buscar as refeições, de vestirmos os nossos fatos e de pormos a maquilhagem... Toda a gente tirava mais fotos do que era normal numa tentativa desesperada de guardar para sempre este momento tão especial para o qual nos tínhamos preparado e aguardávamos há vários meses.

O segmento em que participei era chamado de Pandemónio (ou Revolução Industrial) e como todos nós estávamos vestidos à trabalhadores industriais do Séc. XIX, a deslocação entre os bastidores e o Estádio Olímpico era bastante curiosa por parecer que 3.000 trabalhadores acabaram o seu turno numa fábrica do Séc. XIX.

No dia da cerimónia, a caminho do estádio, começaram a cair umas gotas de chuva... Apesar de estarmos preparados para lidar com ela depois de tantos ensaios à chuva, o receio de que a chuva comprometesse a grandiosidade do espectáculo levou-me a dizer em voz alta "Não! Não posso crer! Não pode chover hoje! Isto não é justo!"... Mas a justiça foi feita e aquelas foram as únicas gotas que caíram até ao dia seguinte :)

Depois de chegarmos ao estádio, cada grupo do Pandemónio ia para as suas posições... Os "Homens e Mulheres" iam para os corredores de acesso ao campo e o meu grupo, os "Guerreiros" (nome inspirado nos nossos treinos físicos intensivos), iam para dentro da montanha... Uma vez lá dentro colocávamo-nos em duas filas e começávamos a subir as duas escadas em caracol que nos levavam até uma plataforma lá em cima... Entre essa plataforma e o topo da montanha de onde iríamos sair assim que a árvore subisse, existia uma escada mais larga que permitia sairmos 3 de cada vez... Uma outra nota técnica é que cada um de nós tinha auscultadores ligados a um rádio FM sintonizado num canal destinado ao nosso grupo, de onde ouvíamos a música e recebíamos algumas deixas.

Após alguns minutos à espera dentro da montanha, começamos a ouvir a música que antecedia a nossa entrada... Ouvimos o discurso de entrada... Os tambores... A árvore começou a subir e ouvimos nos rádios: "Standby Strike... Strike, GO!"

Começo a andar em direcção à escada em caracol... Subo até à plataforma... Começo a subir a última escada onde as máquinas de fumo já estavam a funcionar... E quando o fumo se começa a dissipar eu tenho a única oportunidade de ver todo o estádio cheio e todos os outros performers a entrar em campo.

Eram apenas uns 3 segundos... Era todo o tempo que eu tinha para absorver a grandiosidade do evento, coisa que era facilitada pelo estádio ser oval e estar a sair de uma das suas extremidades, podendo num só relance, sem ter de olhar para a esquerda ou direita, ver tudo o que estava à minha frente... Felizmente no segundo ensaio geral com assistência, tal como na Cerimónia, consegui controlar-me, mas no primeiro ensaio geral com assistência fui esmagado com a brutalidade desta visão e nesses 3 segundos não consegui aguentar-me e soltei um "FUCK!".

Depois destes 3 segundos que roubava para mim, era altura de voltar a dedicar-me a 100% à Cerimónia... Desço a montanha procurando não chocar com nenhum dos meus colegas, não tropeçar ou escorregar... Da montanha desloco-me o mais rapidamente possível até ao meu lugar, mas em personagem: caminho nos tempos da música, olhar focado, tento não caminhar isolado e evito chocar-me com todos os outros grupos com os quais me cruzo.

No meu local ("área 10") começo a receber o material que os "homens e mulheres" do "condado G" traziam e dou apoio aos "guerreiros" da "área 9" (que era móvel) porque eles recebiam demasiadas coisas do "condado F" e tinham de as trazer até à "área 10"... Este material eram pedaços de relva sintética que tinham sido enrolados no campo... Na sua deslocação até à minha área tinha de evitar chocar com as várias paradas que circulavam o estádio e com a equipa dos tambores que entretanto descia da bancada até ao campo.

Apesar de ensaiarmos isto tudo, cada grupo ao andar mais rápido ou lento alterava o percurso de todos os grupos com que se cruzava, fazendo disto um "caos organizado" que os organizadores ajustavam conforme o resultado de cada ensaio.

Chegou o "poppy moment" em que todos paramos o que estamos a fazer... Eu pouso o que tenho em mãos, olho para o centro do campo, tiro lentamente o chapéu e faço de conta que assobio... Na verdade, eu deveria assobiar mas não consigo porque estou ofegante e os primeiros tempos da música servem para recuperar a minha respiração.

BAM! (primeiro tempo)... BAM! (quarto tempo)... BAM! (oitavo tempo) e faço a única coreografia que escapou das 5 que nos ensinaram... As outras foram canceladas porque perdíamos muito tempo com elas e precisávamos arrumar tudo antes de nos deslocarmos novamente para a montanha.

Depois de tudo arrumado, volto para perto da montanha com os outros "guerreiros"... Subimos todos para o centro do campo ficando de frente para a assistência e de costas para os anéis que pouco tempo depois começam a chover fogo de artifício... Através dos rádios FM, dizer-nos para nos virarmos para os anéis enquanto a música termina... E nesse momento, enquanto a multidão entra em euforia, dizem-nos:

"Lentamente voltem a virar-se para a assistência... Aplaudam a assistência... Apontem para os anéis... Façam uma vénia... Voltem a aplaudir a assistência e aplaudam-se também... Vocês estão de parabéns!... Isto foi de loucos!... Vocês foram incríveis!... Vocês fazem oficialmente parte da história desta cidade!"

terça-feira, 24 de julho de 2012

Let the show begin...

É surreal!... É surreal!... É SURREAL!!!

Ontem tive o primeiro ensaio geral para a Cerimónia de Abertura dos Jogos Olímpicos com o estádio cheio... Estavam (apenas) 60.000 pessoas... Entrar no estádio e ver tanta gente é surreal!... As bancadas transformaram-se num padrão de caras!

Este é um exemplo que mostra bem a dimensão do evento: entre a entrada do estádio e o sítio onde vou estar escondido até entrar em cena, há uma pequena parte do percurso que é aberta... São uns 2 metros... É o suficiente para conseguir ver umas 5.000 pessoas da assistência!

Para não revelar nada da Abertura e guardar a surpresa para Sexta-feira (e acreditem que a surpresa é um factor muito relevante) vou falar dos ensaios:

Começando por falar das coisas más, o tempo foi efectivamente o pior de tudo!
Dos 3 anos que vivi em Londres, o tempo nunca me incomodou tanto como nestes últimos 2 meses... TODOS os ensaios foram debaixo de chuva, vento, frio ou as 3 coisas ao mesmo tempo!
Por isso, os sacrifícios pessoais (que desconhecia quando escrevi o post a dizer que ia participar na cerimónia) acabaram por ser ficar à chuva em Londres, quando em Portugal o sol brilhava... E tendo em conta que neste momento não tenho emprego, a única razão forte o suficiente para me aguentar aqui foi mesmo os ensaios serem obrigatórios.

Mas agora as partes boas:

Embora seja um pouco fútil, não é todos os dias que um Engenheiro Informático Português pode dizer "estive a fazer umas perguntas ao Danny Boyle sobre o trabalho que estou a fazer com ele" :)

Mas a melhor parte de todas foi sem dúvida assistir em primeira pessoa ao espírito de sacrifício dos voluntários.

Como o Danny Boyle nos disse quando apresentou o que iamos fazer na cerimónia, "numa altura em que as grandes marcas se apoderaram dos Jogos Olímpicos com negócios de milhões, numa altura em que muitos atletas ganham muitíssimo dinheiro com publicidade, eu acredito que vocês, os voluntários, são o que resta do espírito olímpico."

Só no segmento em que vou participar somos uns 3.000 voluntários (ao todo somos 10.000)... Como era de esperar em Londres, temos as mais variadas profissões, religiões, ideologias, idades, sexos e sexualidades... TODOS oferecemos mais de 100 horas das nossas Vidas e mantivemo-nos fieis à causa sem desistir... Mesmo com toda a chuva, vento e frio, mesmo quando os ensaios duravam 8 horas seguidas, mesmo quando eram ao fim-de-semana, mesmo quando eram depois de um dia de trabalho, mesmo quando terminavam às 22:00, mesmo quando no dia seguinte as pessoas tinham de estar de manhã no trabalho e mesmo quando alguns voluntários vivem tão longe que demoram 2 horas a chegar a casa!

Como retribuição pelo nosso esforço, a organização ofereceu a cada um de nós 2 bilhetes para o último ensaio geral (amanhã), que tive o prazer de oferecer a dois dos meus housemates... Amanhã poderei ouvir pela primeira vez os seus comentários depois deles testemunharem a espectacularidade desta cerimónia... E dentro de 3 dias, 80.000 no estádio e 4.000.000.000 em casa vão poder fazer o mesmo... See you there: